A Besta pode ser má... Mas os vizinhos são amigos!
Damos-lhe as boas-vindas ao blogue dos vizinhos da besta! Palavra que não há motivo para sentir medo ou desconforto. Somos pessoas de bem... ainda que de sanidade mental questionável.
Os vossos amigos, 667, 668, 669, 670 e 671.
Os vossos amigos, 667, 668, 669, 670 e 671.
Abala para o ceptro da paixão que te possua!
Estive recentemente submerso na leitura de “Lolita”, obra-prima de Vladimir Nabokov. Sempre me tomou alguma curiosidade de conhecer mais a fundo o livro que constitui a génesis de “Lolita” como adjectivo, em vez de apenas nome ou alcunha. Mas não venho citar a minha mais recente aventura literária com o objectivo de comentar a respeito do delicioso cinismo estilístico do autor, ou do digladiar deveras sincero da personagem principal, Humbert Humbert, entre uma reprovação nauseabunda e compaixão melancólica para consigo mesmo – quase senti que uma relação afectiva e venérea entre uma “ninfita” de 12 anos e um homem de meia-idade não tinha por que ser condenada. Ele amava-a, ora essa. Porque não? [A respeito deste ultimo ponto devo confessar ter, realmente, sentido alguma compaixão do pobre Humbert Humbert… Tivesse ele predilecção por meninos em vez de meninas, e vivesse na nossa actual Lisboa, poderia se deliciar com meninos de 14, 15 e 16 anos na libertinagem dos clubes nocturnos e, garanto, choviam-lhe palmas de exulto e olhos atravessados de inveja!]
Mas, recensões eruditas e minuciosas deixo-as, naturalmente, para quem as saiba fazer com pompa e autoridade. Aquilo que me proponho a partilhar convosco, amigos, é tão-somente uma passagem que me divertiu particularmente. Passo a citar:
“ (…) Depois, a minha amada afastava-se e sacudia nervosamente o cabelo, para a seguir se aproximar de novo, sombriamente, e me deixar beber a vida da sua boca aberta, enquanto, com uma generosidade disposta a oferecer-lhe tudo – o coração, a garganta, as entranhas –, eu lhe dava a segurar na mão inexperiente o ceptro da minha paixão.”
Compreendo que a uma narrativa de concupiscência tão eufemista uma qualquer vulgaridade não cairia nada bem como remate, e confesso não ter pensado em alguma sugestão alternativa ao “ceptro da minha paixão”. No entanto, ao deparar-me com tal metáfora, o meu corpinho contorceu-se em espasmos involuntários de pura diversão e, é como lhe digo, caro leitor, que o meu ceptro, pobre diabo, por pouco não despejou meio litro de urina. Sou, agora, um fã assumido da expressão, e inspirado pelo eufemismo Nabokovsiano, mudei radicalmente a forma como insulto o próximo. Os meus insultos são hoje pejados de compostura. A minha vida divide-se agora em dois períodos: o Pré-Nabokov, em que usava casualmente de expressões como “Vai para o caralho que te foda!”; e o período Pós-Nabokov, em que passo a dizer, cheio de classe, “Abala para o ceptro da paixão que te possua!”
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